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Em 9 de setembro de 1976, a empresa japonesa JVC lançava em casa o padrão Video Home System (VHS), sistema de videotape destinado ao uso doméstico que se tornaria uma febre mundial.

Criado durante a primeira metade da década de 1970 pela empresa japonesa Victor Company of Japan, mais conhecida pelas iniciais “JVC”, o  VHS, sigla de Video Home System, foi um padrão de gravação e reprodução de vídeo analógico que se tornaria “universal” nas décadas seguintes.

Mas a AMPEX já tinha inventado o videotape, alguns vão alegar. Isso é verdade. Mas muito embora aparelhos com esta finalidade já existissem naquela altura, estes eram caros e pouco acessíveis ao “cidadão comum”, sendo utilizados na maioria dos casos em estúdios e emissoras de TV.

A proposta da JVC foi a de criar um sistema de videotape destinado ao uso doméstico, de modo a tornar a gravação de vídeo para fins pessoais mais prática, compacta e acessível. permitindo que o consumidor não apenas assistisse a programas de televisão em horários diferentes daqueles em que eram transmitidos, mas também gravasse e reproduzisse filmes e outros conteúdos.

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A lendária fitinha que garantiu a alegria dos finais de semana de muitas famílias

Desenvolvido a partir de 1971 nas instalações da JVC em Yokohama/Japão por uma equipe de engenheiros liderada por Shizuo Takano e Yuma Shiraishi, o VHS seria apresentado oficialmente ao mundo em 9 de setembro de 1976, quando a JVC anunciaria o primeiro aparelho videocassete baseado no novo sistema, o Victor HR-3300 (marca usada pela empresa no Japão), em um evento realizado no Hotel Okura, em Tóquio. Suas vendas, entretanto, só seriam iniciadas no mês seguinte, em 31 de outubro de 1976.

Utilizando uma fita magnética de óxido de ferro de aproximadamente 12,7 mm (½ polegada) de largura, acondicionada em uma caixa plástica de 18,7 cm de largura, 10,3 cm de profundidade e 2,5 cm de espessura que protegia a fita e facilitava sua colocação no videocassete, o mecanismo de gravação utilizava o sistema de varredura helicoidal, no qual as duas cabeças de vídeo giravam em alta velocidade e registravam as informações em trilhas diagonais na fita.

Em sua versão original, o padrão foi concebido para oferecer cerca de duas horas de gravação (posteriormente conhecido como modo SP – Standard Play), característica que permitia registrar um filme completo em uma única fita, o que viria a se tornar uma das principais vantagens comerciais do VHS diante dos sistemas concorrentes da época.

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O Victor HR-3300, primeiro aparelho VHS

A chegada do VHS ocorreria em um momento de intensa disputa pelo mercado de vídeo doméstico, visto que seu principal concorrente, o sistema Betamax, desenvolvido pela também japonesa Sony e totalmente incompatível com a nova proposta da JVC, já havia sido lançado no ano anterior, dando origem à uma das maiores disputas comerciais da história, que ficaria conhecida como a “guerra dos formatos”.

Contudo, apesar de o Betamax ter chegado primeiro ao mercado e apresentar algumas vantagens técnicas, a maior duração de gravação do VHS, aliada a uma estratégia comercial que permitia a outras empresas fabricar aparelhos compatíveis, ajudaria a ampliar rapidamente a presença do novo padrão.

Embora ousado e até certo ponto arriscado, talvez o movimento mais importante da JVC na direção da massificação do padrão tenha sido justamente o de licenciar o VHS para outros fabricantes, onde, em vez de mantê-lo restrito aos seus próprios aparelhos, permitiu que diversas companhias japonesas e estrangeiras produzissem videocassetes compatíveis.

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Anúncio da época

Isso faria com que empresas como a Panasonic, RCA, Quasar, Hitachi, Sharp e diversas outras empresas passassem a oferecer equipamentos VHS, aumentando a variedade de aparelhos disponíveis e contribuindo para a redução dos preços. Esta estratégia criaria uma ampla base instalada de equipamentos compatíveis, algo fundamental para um formato que dependia tanto da disponibilidade de aparelhos quanto da oferta de fitas gravadas.

Na terra do Tio Sam, o primeiro modelo de videocassete VHS chegaria apenas no ano seguinte, em 23 de agosto de 1977, quando a RCA apresentaria o VBT200, desenvolvido pela Matsushita, primeiro modelo de videocassete VHS produzido por uma empresa diferente da JVC.

Embora atrasado em relação ao Japão, este aparelho traria uma grande novidade: um novo modo de gravação mais lento (LP), que permitia registrar até quatro horas de vídeo na mesma fita. A duração das gravações continuaria aumentando à medida que o padrão evoluía. Além do modo SP (Standard Play), de melhor qualidade e duração mais curta, surgiram modos de velocidade reduzida, como LP (Long Play) e posteriormente EP/SLP (Extended Play/Super Long Play).

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RCA VBT200, primeiro modelo norte-americano

Com fitas de maior duração, tornar-se-ia possível armazenar quatro, seis ou ainda mais horas de programação, característica que ajudaria a transformar o videocassete em um verdadeiro “gravador de televisão”, permitindo que o usuário programasse o aparelho para registrar programas durante sua ausência e os assistisse posteriormente.

A popularização do VHS também transformaria profundamente a maneira como filmes seriam consumidos, fazendo surgir empresas especializadas na distribuição de filmes pré-gravados, bem com as saudosas “videolocadoras”,  como a BlockBuster, que passariam a alugar fitas para os consumidores.

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Videolocadora nos anos 80, com os fitas nos formatos VHS e Betamax

Pela primeira vez, uma família podia escolher um filme em uma loja, levá-lo para casa e assisti-lo no horário que desejasse, além de poder pausar, avançar ou retroceder a reprodução. O videocassete também permitiria a criação de coleções particulares de filmes, programas de televisão, gravações familiares e outros conteúdos, estabelecendo uma nova relação entre o público e a televisão.

Ao longo da segunda metade da década de 1970 a expansão internacional do sistema seria rápida, com o VHS passando a disputar diretamente com o Betamax o crescente mercado de vídeo doméstico. Aqui no Brasil, os primeiros videocassetes começariam a aparecer por volta de 1978, inicialmente como produtos importados e de preço ainda muito elevado.

A situação começaria a mudar no início da década de 1980, quando a indústria brasileira passaria a fabricar aparelhos localmente, que precisariam ser adaptados para operar com nosso sistema de televisão em cores, o PAL-M. Em 1982, a Sharp iniciaria a produção nacional de videocassetes VHS, sendo seguida no mesmo período por empresas como Sony e Philco.

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SHARP VC-8510, primeiro modelo produzido no Brasil

A chegada do VHS ao Brasil coincidiria com a rápida expansão das videolocadoras e do mercado de filmes em fita, com o videocassete vindo a se tornar um dos objetos de consumo mais desejados da década de 1980, embora seu preço ainda fosse elevado para grande parte da população.

Evolução

O VHS, todavia, não ficaria restrito aos videocassetes de mesa. Em 1982, a JVC introduziria o VHS-C (VHS Compact), sistema que utilizava o mesmo princípio de gravação do VHS convencional e uma fita de mesma largura, mas acondicionada em um cartucho menor dimensão, destinado especialmente às primeiras filmadoras domésticas compactas.

Em uma solução engenhosa, a empresa desenvolveria também um “adaptador” que permitia utilizar a pequena fita VHS-C em um videocassete convencional, tornando possível reproduzir as gravações domésticas diretamente nos aparelhos de televisão da sala de estar para toda a família. 😊

A evolução continuaria com o VHS HQ (High Quality), introduzido pela JVC em 1985, que empregava circuitos destinados a melhorar a qualidade da imagem sem abandonar a compatibilidade básica com o ecossistema VHS. Em 15 de abril de 1987, a JVC apresentaria o S-VHS (Super VHS), uma evolução destinada a oferecer maior qualidade de imagem.

O S-VHS aumentava significativamente a largura de banda utilizada para o sinal de luminância e podia alcançar aproximadamente 400 linhas de resolução horizontal, contra cerca de 240 linhas do VHS convencional. Apesar da superioridade técnica, seu preço mais elevado e a enorme popularidade do VHS impediram que o S-VHS substituísse o padrão original no mercado doméstico.

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O padrão tentaria evoluir frente à concorrência

Na década de 1990, porém, o VHS começaria a enfrentar concorrentes de uma nova geração. As filmadoras digitais e formatos como MiniDV passariam a oferecer imagens de melhor qualidade e equipamentos menores, enquanto o DVD, introduzido comercialmente em meados da década, traria ao consumidor um meio óptico digital com imagem mais nítida, acesso mais rápido às cenas, ausência de desgaste mecânico durante a reprodução e maior facilidade de armazenamento.

Ainda assim, o VHS continuaria durante muitos anos como o formato dominante instalado nas residências, graças à enorme quantidade de aparelhos e fitas já existentes.

A própria JVC ainda tentaria adaptar a tecnologia à era digital, apresentando em 1998 o D-VHS (Digital VHS), capaz de registrar dados digitais em fitas utilizando a mesma família tecnológica. O novo formato podia armazenar transmissões digitais, inclusive conteúdo de alta definição, com as especificações finais do sistema tendo sido anunciadas pela JVC em 3 de julho de 1998.

Entretanto, embora o D-VHS representasse uma tentativa de prolongar a vida da tecnologia, ele apareceria justamente quando o DVD e outras tecnologias digitais começavam a transformar definitivamente o mercado doméstico de vídeo, trazendo interatividade, menus, legendas e áudios multilíngue, e muitas outras possibilidades.

Guerra dos Formatos

A supremacia do VHS sobre o Betamax seria consolidada durante a década de 1980. Em 1981, a participação do Betamax já havia caído para aproximadamente 25% das vendas de videocassetes nos Estados Unidos, enquanto o VHS ampliaria sua participação, alcançando, em 1987, cerca de 90% do mercado norte-americano de aparelhos.

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A “guerra dos formatos”

Em um acontecimento histórico, em 1988, a própria Sony passaria a fabricar videocassetes VHS, simbolizando a vitória definitiva do formato criado pela JVC na chamada guerra dos formatos. A disputa demonstraria que, no mercado de tecnologia de consumo, a qualidade técnica isoladamente nem sempre determina o vencedor, com preço, duração, disponibilidade de aparelhos, variedade de fabricantes e quantidade de conteúdo também podendo ser decisivos.

O declínio

Com a popularização das mídias ópticas digitais a partir do final dos anos 1990 e principalmente durante os anos 2000, o DVD, lançado em 1996, substituiria progressivamente o VHS como principal meio de distribuição de filmes domésticos, com as videolocadoras reduzindo seus estoques de fitas e aumentando a oferta de DVDs, e os fabricantes diminuindo gradualmente a produção de videocassetes.

Em 2003, o aluguel e venda de filmes em DVD superariam definitivamente os números obtidos pelo formato em fita, com o último grande filme lançado comercialmente no formato VHS por um estúdio de Hollywood sendo “A.I. – Inteligência Artificial“, distribuído em fitas no mercado norte-americano no ano de 2006.

Posteriormente, os discos Blu-ray e os serviços de vídeo sob demanda e streaming acelerariam ainda mais esse processo. O aparelho que havia transformado a televisão em uma experiência controlada pelo espectador passou, assim, de produto indispensável a equipamento obsoleto em pouco mais de duas décadas.

Apesar do declínio, a produção de videocassetes VHS sobreviveria por mais tempo do que muita gente imaginava. 😉

A Funai Electric, empresa japonesa que fabricava aparelhos principalmente para o mercado norte-americano, continuaria produzindo modelos VHS, inclusive sob marcas licenciadas com a Sanyo, comercializando no ano de 2000 (contra todas as previsões) cerca de 15 milhões de aparelhos.

Quinze anos depois, entretanto, sua produção anual cairia para aproximadamente 750 mil unidades, em função não só da redução da demanda mas, principalmente, pela dificuldade crescente em se obter componentes para a fabricação, levando a empresa a anunciar em 22 de julho de 2016 o encerramento definitivo da produção.

A fabricação do último videocassete VHS ocorreria em 30 julho de 2016, quando a Funai, então considerada a última fabricante conhecida de videocassetes do mundo, encerraria definitivamente a produção em sua unidade chinesa.

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SANYO FWDV225F, último VHS fabricado pela FUNAI

Este encerramento não significaria, contudo, que as fitas VHS deixariam imediatamente de existir, com milhões delas ainda estando armazenadas em armários e gavetas de residências, arquivos, bibliotecas, emissoras e coleções particulares.

Entretanto, o anúncio da Funai simbolizava o fim da fabricação em escala comercial dos aparelhos que, durante quatro décadas, foram responsáveis por gravar, reproduzir e preservar uma enorme parcela da memória audiovisual doméstica do final do século XX.

Mais do que simplesmente um “formato” de fita magnética, o VHS representaria uma importante transformação na história da tecnologia de consumo, do registro audiovisual e do entretenimento doméstico. Antes dele, televisão e cinema eram experiências predominantemente determinadas pela programação das emissoras e pelos horários das salas de exibição, cenário que mudaria que mudaria definitivamente com o videocassete, quando o espectador passaria a escolher quando assistir, o que assistir e, principalmente, poder gravar seus próprios conteúdos.


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Vídeo(s):

*legendas disponíveis nos controles do Youtube, na opção “⚙ >> Legendas/CC >> Traduzir automaticamente”.

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*As imagens utilizadas nesta postagem são meramente ilustrativas e foram obtidas da internet.


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