A chave Phillips de 1936

Em 7 de julho de 1936, Henry Frank Phillips obtinha as patentes para o conjunto de parafuso e a chave que ficaria conhecido mundialmente como “chave Phillips”.
Embora muitas pessoas associem a história da computação e dos videogames apenas à placas de circuito, componentes eletrônicos e microchips, a evolução do hardware sempre dependeu diretamente de inovações na engenharia mecânica básica.
Um dos componentes mais cruciais para a montagem em massa das primeiras linhas de produção de equipamentos eletrônicos e de informática foi o sistema de fixação industrial, que ganharia um salto evolutivo gigantesco graças ao empresário e inventor norte-americano Henry Frank Phillips.
Ele revolucionaria a forma como as máquinas eram montadas ao promover e patentear o formato de fenda cruzada que levaria o seu nome, amplamente conhecido no Brasil como a famosa “chave Philips“, que apesar de ter seu nome eternamente ligado à ferramenta, não teve a ideia original do parafuso de cabeça em cruz.
Essa história de inovação mecânica fundamental começaria originalmente com um inventor chamado John P. Thompson, que patenteou o primeiro design de um parafuso com fenda em cruz no dia 9 de maio de 1933. Thompson percebeu que as fendas retas tradicionais faziam com que as ferramentas deslizassem facilmente, danificando os componentes e atrasando os processos de manufatura.
Com uma boa ideia, mas incapaz de encontrar fabricantes interessados em produzir seu conceito em larga escala, Thompson, sem o necessário apoio industrial, acabaria vendendo os direitos de sua invenção para Henry Frank Phillips em 1935, então diretor da Oregon Copper Company, que enxergaria o imenso potencial comercial daquela ideia para a crescente indústria metalúrgica e automotiva.

Phillips fundaria então a Phillips Screw Company no estado do Oregon, nos Estados Unidos, refinando substancialmente o design original de Thompson e trabalhando em conjunto com fabricantes de parafusos, como a American Screw Company, para adaptar o projeto inicial aos métodos industriais da época.
A fim de assegurar seus direitos sobre o sistema de fixação reformulado, ele obteria suas próprias patentes, tendo como as mais importantes as concedidas em 07 de julho de 1936, registradas sob o número US2046343A (parafuso), e a US2046837A, que cobria as especificações técnicas exatas para a fabricação da ferramenta manual correspondente, a chave de fenda cruzada.
O grande trunfo técnico do sistema criado por Phillips era o seu desenho autocentralizador, que forçava a ponta da chave a se posicionar perfeitamente no meio do parafuso de forma natural, o que facilitava muito o uso de parafusadeiras mecânicas e ferramentas elétricas nas linhas de montagem, permitindo maior velocidade de trabalho e reduzindo a chance de a ferramenta escapar lateralmente durante o aperto.
Além disso, o sistema de chave Phillips possuía uma propriedade mecânica calculada para que a chave deslizasse para fora do encaixe quando o aperto atingisse um limite máximo de torque. Essa característica, conhecida no jargão industrial como “cam-out“, impedia que as primeiras parafusadeiras automáticas das linhas de montagem aplicassem força excessiva, evitando de forma eficaz a quebra das cabeças dos parafusos e o desgaste prematuro dos materiais.
Contudo, sua principal contribuição não seria apenas técnica, mas também comercial.
Ele dedicaria anos à divulgação da novidade e à busca de parceiros que aceitassem produzir o novo padrão de parafuso e sua respectiva chave. Em um período em que a indústria já possuía décadas de experiência com parafusos de fenda reta, convencer os fabricantes a mudar não foi uma tarefa simples.

A adoção comercial em larga escala do invento começaria de forma oficial quando a gigante automotiva General Motors implementou os parafusos e chaves da empresa de Phillips na linha de montagem dos automóveis da marca Cadillac no ano de 1937. Os resultados foram considerados extremamente positivos, pois o novo padrão acelerava a montagem dos veículos e reduzia falhas operacionais. Outras montadoras de Detroit passaram a utilizar o novo padrão, e a fabricação dos parafusos Phillips cresceu de forma acelerada.
Após o sucesso na indústria automobilística, a adoção foi extremamente rápida. Em 1940, cerca de 85% dos fabricantes de parafusos dos Estados Unidos já possuíam licenças para produzir o sistema desenvolvido por Phillips, com a chave Phillips, em poucos anos, deixando de ser uma novidade industrial para se tornar uma ferramenta de uso universal.
O sucesso estrondoso na indústria automobilística faria com que o novo padrão se espalhasse rapidamente para os setores de aviação e de manufatura de eletrodomésticos durante o período da Segunda Guerra Mundial. Milhões de veículos, equipamentos militares, aparelhos de rádio e máquinas passariam a utilizar parafusos do padrão Phillips, com a ferramenta tornando-se presença obrigatória em oficinas mecânicas, fábricas e caixas de ferramentas domésticas em diversos países.
Com o término do conflito global, o formato já havia se consolidado como a escolha padrão para a montagem de estruturas metálicas e gabinetes industriais em diversos países. Nas décadas seguintes, a chave Phillips passaria a desempenhar um papel fundamental também na indústria eletrônica, com rádios, televisores, aparelhos de som utilizando amplamente parafusos desse padrão.
Paralelamente, com o nascimento e a expansão da indústria de computadores, os mainframes (computadores de grande porte), computadores pessoais, impressoras, monitores e consoles de videogame, tornariam a chave Philips e seus respectivos parafusos ferramentas obrigatórias nas bancadas de engenheiros e técnicos, com quase a totalidade dos componentes internos, como fontes de alimentação, placas de circuito impresso, drives de disquete e carcaças plásticas, sendo mantidos firmemente unidos por parafusos com o padrão de fenda cruzada de Phillips.

As patentes sobre o desenho do parafuso e da chave expiraram oficialmente no ano de 1966, permitindo que fabricantes de ferramentas e de fixadores de todo o planeta produzissem o formato livremente sem o pagamento de royalties. Essa abertura consolidaria em definitivo o padrão Phillips como um elemento onipresente no cotidiano mundial, tornando a famosa chave cruzada um item indispensável em qualquer residência ou laboratório avançado de manutenção de hardware.
Mas embora o formato original de fenda cruzada continue extremamente popular e vivo no mercado atual, o padrão Phillips não permaneceria eternamente sem concorrentes, começando a ser gradativamente substituído ou complementado na indústria tecnológica de alta precisão por novos padrões de fixação mais avançados.
Surgiriam assim, a partir da segunda metade do século XX, formatos modernos como as fendas Torx, Pozidriv e os parafusos do tipo Allen, projetados para terem maior resistência ao desgaste, transmitir mais torque e reduzir o chamado “cam-out”, passando a ocupar o espaço na montagem de dispositivos miniaturizados contemporâneos, como smartphones, tablets e notebooks ultrafinos.
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